A dor passou. E agora, fisioterapeuta?

FIM DO PRIMEIRO MOVIMENTO
Os apreciadores de música clássica sabem que o momento certo para aplaudir é quando soa a última nota de uma sinfonia — nunca antes disso, o que tiraria a concentração da orquestra e atrapalharia todo o andamento. Pode-se dizer que algo parecido se passa na fisioterapia.

Concluída a primeira fase, não é certo interromper o tratamento. Ainda é preciso muito trabalho para garantir a perfeita harmonia do corpo.

Quando termina a etapa da analgesia — que é como os especialistas definem aquelas primeiras sessões focadas em acabar com a dor —, é a vez de colocar a pessoa nos eixos. “O objetivo é fazer com que o paciente volte a desempenhar as funções com habilidade”, conta Maurício Garcia, que também é coordenador do Centro de Traumatologia do Esporte da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp.

O tratamento nunca para antes de se ter certeza disso.

No caso de uma torção, por exemplo, o risco de uma nova lesão aumenta quando as sessões não vão até o fim”, revela a fisioterapeuta Maria Cecília dos Santos Moreira, diretora do Instituto de Reabilitação Rede Lucy Montoro, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

É que os sintomas somem antes de o processo de cicatrização interna se completar. Portanto, quando a dor acaba é preciso ter paciência e enfrentar os exercícios para o fortalecimento da musculatura local. “E, claro, em alguns casos, deve-se corrigir a postura e fazer alongamento”, diz a fisioterapeuta Nathassia Orestes, também do Instituto Cohen.

Fortalecer a musculatura e restabelecer o equilíbrio são algumas das prioridades para os pacientes com sequelas de derrame. Só que, no caso deles, a abordagem é diferenciada: “É preciso levar em consideração a região do cérebro afetada pelo problema”, explica a fisioterapeuta Fátima Gobbi, do Centro de Reabilitação do Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista.

As primeiras sessões procuram estimular o cérebro para que ele aprenda, outra vez, a realizar determinados movimentos. São sequências de exercícios para restabelecer a coordenação. Aos poucos, o paciente começa a ter domínio do seu tronco, até conseguir parar sentado, sem escorregar.

De acordo com a evolução do indivíduo, é possível incluir exercícios de marcha a partir do momento em que ele já fica sentado sozinho. “Até que a pessoa tenha segurança para caminhar por conta própria, ela recebe apoio”, descreve Jeane Peixoto, do Instituto de Reabilitação Rede Lucy Montoro. Até mesmo em derrames que deixam a vítima de cadeira de rodas para sempre, a fisioterapia é fundamental. Isso porque afasta o risco de a musculatura do corpo se atrofiar, ajustando a postura do cadeirante, por exemplo. Os paraplégicos necessitam do mesmo cuidado, até porque, vivendo sentados, podem viver com inchaços pelo corpo, causados pela má circulação.

Mulheres que passaram por cirurgia para a retirada do seio podem ter o movimento dos braços prejudicado. Além disso, há modificação na anatomia do tórax, que costuma alterar a postura — essa é outra área em que a mãozinha do fisioterapeuta se torna preciosa. Exercícios de alongamento ajudam a evitar tendinites e dores na coluna nessas pacientes. Há ainda a drenagem linfática específica para inchaços que costumam dar as caras no pós-operatório. “A técnica não faz o tumor se espalhar, como se pensava no passado. Isso é mito”, garante Milena Trudes Caires.

DENTRO DO HOSPITAL
Quando se trata de um problema grave, como um câncer ou um rompimento de medula, o ideal é que a assistência do fisioterapeuta comece na unidade de terapia intensiva. Não por menos. Pacientes que passam muito tempo imobilizados tendem a ficar com articulações e músculos comprometidos. “É importante fazer um trabalho de prevenção para evitar danos”, esclarece Ana Lígia Vasconcelos Maida, fisioterapeuta do Hospital Sírio-Libanês. “Pesquisas mostram que a reabilitação diminui pela metade o tempo de permanência na UTI”, revela o fisioterapeuta Sílvio César Autílio, do Hospital e Maternidade São Luiz.

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